terça-feira, 12 de janeiro de 2016
Insight Filosófico: A Escola e a Família comoalicerce para reduzir a V...
Insight Filosófico: A Escola e a Família como alicerce para reduzir a V...: A Escola e a Família como alicerce para reduzir a Violência Josiany Dórea O tema é muito complexo e não traz soluções imediatas e mág...
A Escola e a Família como
alicerce para reduzir a Violência
Josiany Dórea
O
tema é muito complexo e não traz soluções imediatas e mágicas. A Escola é uma
instituição que poderá contribuir muito para a formação da cidadania. Um espaço
que amplia novos caminhos, possibilidades e desafios. Por sua vez, a família é
uma instituição base na formação do ser. E imaginemos no poder que possuímos com
as duas instituições unidas com um propósito primordial e desafiante: construir
seres humanos cada vez mais comprometidos com a ética e cidadania.
Vejamos
uma entrevista muito interessante da revista Páginas Abertas, da editora
Paulus, com a Dra. Edith Rubinstein. Ela é formada em pedagogia, psicopedagogia
e mestre em Psicologia da Educação. Também é especialista em Mediação
Educacional formadora de PEI pelo ICELP de Jerusalém, terapeuta família, coordenadora
e docente do Centro de Estudos Seminários de
Psicopedagogia e ex-presidente e membro do conselho nato da Associação
Brasileira de Psicopedagogia.
Revista
Páginas Abertas: Pela sua experiência, é
possível dizer onde nasce a violência? Em casa, na família, na escola?
Dra. Edith Rubinstein: Entendo
a violência humana como efeito de uma construção complexa. O ser humano não é
por natureza violento, ele se constitui na relação com o outro, portanto é
possível pensar numa construção social. A constituição do ser humano é complexa
e os diferentes contextos por onde se dá a convivência contribuem ou não para
um equilíbrio emocional saudável.
PA:
Em sua visão quais são impactos que a violência pode causar no ambiente
escolar?
ER:
Infelizmente a violência pode estar presente no ambiente escolar, mas ser
proveniente não somente do contexto escolar. Crianças vítimas de violência em
outros contextos aprendem formas violentas de responder às diferentes
situações, diferentes contextos. Dificuldade para aceitação de normas e regras,
dificuldades para suportar a frustração diante do não aprender poderão produzir
respostas entendidas como agressivas ou violentas. Portanto, nem sempre
respostas violentas são efeito de experiências violentas; a violência poderá
aparecer como um sintoma de outras vivências de sofrimento. Embora a escola
tenha como função a formação acadêmica, sabemos que essa função não é
suficiente para promover uma formação global do cidadão.
PA:
Como a família e a escola podem lidar com a violência? Existem modelos de
prevenção?
ER:
A instituição escolar deve estar preparada para acionar dentro de seu contexto
ou de sua rede o apoio profissional necessário para lidar com a violência e
seus efeitos. Também a equipe multidisciplinar escolar deverá, em conjunto,
construir possíveis caminhos para a dissolução das questões que atingem o
contexto como um todo. Entendo que a dissolução do problema dependerá não
somente do especialista, mas do envolvimento de uma rede e de uma equipe que,
em conjunto, irão construir possíveis propostas que demandarão análise crítica
e formulações para gerar respostas satisfatórias. Não há soluções antecipadas e
certeiras. Casa situação demanda uma construção específica.
PA:
Como família e escola podem contribuir para um sistema de educação saudável?
ER:
Um sistema de educação formal saudável inclui o diálogo, a colaboração e a
cooperação de todos os envolvidos na instituição. Constrói-se um contexto
democrático quando as regras e o sistema relacional são conhecidos, construídos
e aceitos pelo grupo.
PA:
E a família?
ER:
Na educação não formal familiar é importante que os adultos estejam mais
seguros na condução da educação pelo diálogo. A contenção e colocação de regras
na medida certa são fundamentais para lidar com as tensões pertencentes à cada
etapa do desenvolvimento da criança e do jovem. Ninguém nasce preparado para
ser pai e mãe, nem para ser filho. É no convívio social que se constroem esses
lugares. Não há manuais que atendam a cada singularidade humana.
PA:
Como funciona o atendimento psicológico de um professor que sofreu algum caso
de violência?
ER:
Toda pessoa vítima de violência demanda cuidados especiais de profissionais da
área da psicologia, bem como o apoio e acolhimento da instituição como um todo.
PA:
Entre alunos é comum que haja períodos de vida de maior revolta e violência?
Como o professor, escola e família podem ajudar?
ER:
Nem sempre a violência está relacionada com uma etapa da vida; ela pode,
fundamentalmente, estar ligada a experiências violentas. Situações de abandono
precoce dos adultos e internações em abrigos não promovem um desenvolvimento
saudável. Há histórias de abandono de crianças que são adotadas ainda muito
jovens (antes dos três anos) e devolvidas para instituição por adultos que não
conseguiram dar continuidade ao projeto de adoção. Essa experiência dolorosa
pode gerar violência.
PA:
Quando é indicado um acompanhamento psicológico para alunos ou professores?
ER:
O acompanhamento psicológico para qualquer pessoa é indicado para o alívio e a
reabilitação emocional por diferentes causas que venham a proporcionar
sofrimento.
PA:
Qual seria o modelo escolar considerado ideal para a aprendizagem?
ER:
Não acredito que haja um modelo único e ideal de escolarização. Dependerá
também da escolha de cada comunidade, de seu projeto político pedagógico. Mas,
de modo geral, no contexto da escola são considerados saudáveis os modelos que
envolvem: promoção da autonomia de todos os envolvidos na instituição; a
colaboração entre pares; ambiente que favoreça o diálogo e, com certeza, uma
proposta que ofereça aprendizagem significativa, criativa e que se preocupe com
a construção de pessoas críticas, respeitadoras das diferenças e ativas.
PA:
Qual o papel da família e da escola nesse modelo?
ER:
No contexto familiar, é importante que os valores éticos e regras de
convivência sejam compartilhados como significativos para o bem-estar do grupo
e de cada membro. Tenho ouvido com frequência a pergunta: “Meu filho manda em
mim; e agora, o que faço? ”. Esses questionamentos expressam a falta de
discriminação entre os adultos que artificialmente excluem a assimetria. Será
que a criança pode tomar decisões sobre a sua condução? Ela tem experiência de
vida para isso?
PA:
Como o professor, a família e a escola podem ajudar a cria uma sociedade menos
violenta?
ER:
A violência, tal como a guerra, ocorre quando a diplomacia e a educação falham.
Adultos mais preparados emocionalmente poderão lidar com mais habilidade com os
inevitáveis e inesperados desafios pertinentes a qualquer agrupamento humano.
Uma sociedade menos violenta requer a construção de um contexto em que o
diálogo e o respeito mútuo estejam presentes na ação de todos os envolvidos.
Códigos escritos por si só não garantem a inexistência da violência.
domingo, 3 de janeiro de 2016
OLHAR, VER E PENSAR
Josiany
Dórea
O artigo abaixo nos remete a uma reflexão filosófica sobre
o ver e o olhar aprendendo a pensar sobre a diferença entre ambos. A filósofa Márcia
Tiburi nos proporciona um novo olhar acerca do ver ... A importância de buscarmos
o olhar crítico, reflexivo para as artes, e acredito, para nossa vida cotidiana,
nos dará uma nova proporção para o pensar.
Vamos olhar vendo e pensando nas variadas possibilidades...
APRENDER A PENSAR É DESCOBRIR O OLHAR
Márcia
Tiburi
A diferença entre ver e olhar é tanto uma distinção
semântica que se torna importante em nossos sofisticados jogos de linguagem
tomados da tarefa de compreender a condição humana – e, nela, especialmente as
artes –, quanto um lugar comum de nossa experiência. Basta pensar um pouco e a
diferença das palavras, uma diferença de significantes, pode revelar uma
diferença em nossos gestos, ações e comportamentos. Nossa cultura visual é
vasta e rica, entretanto, estamos submetidos a um mundo de imagens que muitas
vezes não entendemos e, por isso, podemos dizer que vemos e não vemos, olhamos
e não olhamos. O tema ver-olhar – antigo como a filosofia e a arte – torna- se
cada vez mais fundamental no mundo das artes e estas o território por
excelência de seu exercício. Mas se as artes nos ensinam a ver – olhar, é
porque nos possibilitam camuflagens e ocultamentos. Só podemos ver quando
aprendemos que algo não está à mostra e podemos sabê-lo. Portanto, para ver
olhar, é preciso pensar.
Ver
está implicado ao sentido físico da visão. Costumamos, todavia, usar a
expressão olhar para afirmar uma outra complexidade do ver. Quando chamo alguém
para olhar algo espero dele uma atenção estética, demorada e contemplativa,
enquanto ao esperar que alguém veja algo, a expectativa se dirige à
visualização, ainda que curiosa, sem que se espere dele o aspecto
contemplativo. Ver é reto, olhar é sinuoso. Ver é sintético, olhar é analítico.
Ver é imediato, olhar é mediado. A imediaticidade do ver torna-o um evento
objetivo. Vê-se um fantasma, mas não se olha um fantasma. Vemos televisão,
enquanto olhamos uma paisagem, uma pintura.
A lentidão é do olhar, a rapidez é própria ao ver. O olhar
é feito de mediações próprias à temporalidade. Ele sempre se dá no tempo, mesmo
que nos remeta a um além do tempo. Ver, todavia, não nos dá a medida de nenhuma
temporalidade, tal o modo instantâneo com que o realizamos. Ver não nos faz
pensar, ver nos choca ou nem sequer nos atinge. As mediações do olhar, por sua
vez, colocam-no no registro do corpo: no olhar – ao olhar - vejo algo, mas já
vitimado por tudo o que atrapalha minha atenção retirando-a da espécie
sintética do ver e registrando- a num gesto analítico que me faz passear por
entre estilhaços e fragmentos a compor – em algum momento – um todo. O olhar
mostra que não é fácil ver e que é preciso ver, ainda que pareça impossível,
pois no olhar o objeto visto aparece em seus estilhaços de ser e só com muito
custo é que se recupera para ele a síntese que nos possibilita reconstruir o
objeto. É como se depois de ver fosse necessário olhar, para então, novamente
ver. Há, assim, uma dinâmica, um movimento - podemos dizer - um ritmo em um
processo de olhar-ver. Ver e olhar se complementam, são dois movimentos do
mesmo gesto que envolve sensibilidade e atenção.
O olhar diz-nos que não temos o objeto e, todavia, nos
dispõe no esforço de reconstituí-lo. O olhar nos faz perder o objeto que visto
parecia capturado. Para que reconstituí-lo? Para realmente capturá-lo. Mas essa
captura que se dá no olhar é dialética: perder e reencontrar são os momentos
tensos no jogo da visão. Há, entretanto, ainda outro motivo para buscar
reconstruir o objeto do olhar: para não perder além do objeto, eu mesmo, que
nasço, como sujeito, do objeto que contemplo – construo enquanto contemplo.
Olhar é também uma questão de sobrevivência. Ver, por sua vez, nos liberta de
saber e pode nos libertar de ser. Se o olhar precisa do pensamento e ver abdica
dele, podemos dizer que o sujeito que olha existe, enquanto que o sujeito que
vê, não necessariamente existe. Penso, logo existo: olho, logo existo. Eis uma
formulação para nosso problema.
Mas
se não existo pelo ver, não estou implicado por ele nem à vida, nem à morte.
Ver nos distancia da morte, olhar nos relaciona a ela. O saber que advém do
olhar é sempre uma informação sobre a morte. A morte é a imagem. A imagem é,
antes, a morte. Ver não me diz nada sobre a morte, é apenas um primeiro
momento. Ver é um nascimento, é primeiro. O olhar é a ruminação do ver: sua
experiência alongada no tempo e no espaço e que, por isso, nos instaura em
outra consistência de ser. Por isso, nossa cultura hiper visual dirige-se ao
avanço das tecnologias do ver, mas não do olhar. É natural que venhamos a
desenvolver uma relação de mercadoria com os objetos visualizáveis e visíveis.
O olhar implica, de sua parte, o invisível do objeto: a coisa. Ele nos lança na
experiência metafísica. Desarvoramos a perspectiva, perturba-nos. Por isso o
evitamos. Todavia, ainda que a mediação implicada no olhar faça dele um
acontecimento esparso, pois o olhar exige que se passeie na imagem e esse
passear na imagem traça a correspondência ao que não é visto, é o olhar que nos
devolve ao objeto – mas não nos devolve o objeto - não sem antes dar-nos sua
presença angustiada.
O
olhar está, em se tratando do uso filosófico do conceito, ligado à
contemplação, termo que usamos para traduzir a expressão Theorein, o ato do
pensamento de teor contemplativo, ou seja, o pensar que se dá no gesto primeiro
da atenção às coisas até a visão das ideias tal como se vê na filosofia
platônica.
Paul Valéry disse que uma obra de arte deveria nos ensinar
que não vimos aquilo que vemos. Que ver é não ver. Dirá Lacan: ver é perder.
Perder algo do objeto, algo do que contemplamos, por que jamais podemos
contemplar o todo. O que se mostra só se mostra por que não o vemos. Neste
processo está implicado o que podemos chamar o silêncio da visão: abrimo-nos à
experiência do olhar no momento em que o objeto nos impede de ver. Uma obra de
arte não nos deixa ver. Ela nos faz pensar. Então, olhamos para ela e vemos.
Artigo
originalmente publicado pelo Jornal do Margs, edição 10 (setembro/outubro)/ www.arteescola.org.br.
sábado, 5 de dezembro de 2015
Racismo, discriminação e drogas...
Josiany Dórea
Em tempos de muitos comentários e polêmicas sobre racismo, preconceitos e discriminação racial, acredito que seja
interessante ouvir outras vozes. Assim, podemos analisar e/ou discutir os problemas sociais brasileiros com um novo olhar. Será que Carl Hart está com
a razão? Vejamos...
"Brasil vive apartheid e culpam as
drogas", diz Carl Hart
![]() |
| Ascom - Secretaria da Justiça do Estado / Divulgação |
Primeiro
neurocientista negro a se tornar professor titular da universidade de Columbia,
em Nova York (EUA), autor do livro Um Preço Muito Alto: A Jornada de um
neurocientista que desafia nossa visão sobre as drogas, o pesquisador
norte-americano Carl Hart.
Na segunda passagem pela capital baiana, Hart fala sobre o trabalho
que vem desenvolvendo em relação à política mundial antidrogas (na visão dele
"uma política enganadora").
1- Quais são suas
principais ideias sobre a política de drogas no mundo?
(Carl) É uma
pergunta ampla. Escrevi um livro inteiro sobre isso. As políticas de drogas são
diferentes a depender de onde se está. No Brasil, o principal problema é que as
pessoas estão sendo induzidas ao erro, enganadas, em relação às drogas na
sociedade. Dizem à população que as drogas são um problema em si, quando as
questões estão ligadas à própria estrutura social, discriminação racial,
pobreza, falta de educação, falta de inclusão em certos grupos. O que há,
essencialmente, é um apartheid. E culpam as drogas, por meio de campanhas
contra o crack, como se o crack fosse o problema. O crack apareceu no Brasil
por volta de 2005, a pobreza está desde sempre, assim como a violência e o
crime. Atribuir essas questões à existência das drogas e dos traficantes é
desonesto. Sugiro às pessoas, principalmente aquelas que estão sendo colocadas
nas cadeias ou mortas pela polícia, que se levantem e digam: "Essa
política antidrogas é besteira!".
2- A respeito da defesa do sr. da legalização
ou descriminalização das drogas nos EUA, o mesmo pode ser aplicado no Brasil?
(Carl)
Claro. Seja legalização ou descriminalização, o que quer que funcione na
sociedade seria bom. Devemos perguntar quais questões queremos resolver: Se
estamos preocupados com traficantes, teremos que pensar sobre a legalização,
pois tem a ver com o comércio. Por outro lado, traficantes não terão êxito se
houver inclusão social. Até descobrimos como sermos mais inclusivos, sempre
teremos problemas com o tráfico. Onde houver drogas e pessoas terá tráfico.
Mas, enquanto pessoas não forem incluídas, haverá economia clandestina.
3- O sr. crê que o uso de drogas passa por
um problema de saúde em vez de polícia?
(Carl)
Depende muito. Para a maioria das
pessoas que usa drogas não se trata de um problema de saúde, embora possa se
tornar. Pense, por exemplo, no uso do automóvel. Muita gente dirige de forma
imprudente e acaba tendo problemas, se envolve em acidentes, o que acaba se
tornando um problema de saúde. Mas a maioria da população usa o automóvel de
maneira segura e tal uso não se configura um problema de saúde pública.
4- Esse talvez seria um dos motivos pelos
quais as pessoas enveredam pelo tráfico?
(Carl)
As pessoas sempre perseguem as
necessidades básicas, não importa em qual sistema vivam. Elas precisam comer,
morar, precisam do mínimo de respeito. Quando não se tem isso, elas vão buscar
em outro lugar. De repente, vem alguém que oferece um 'trabalho' no tráfico ou
qualquer outra atividade, e essa pessoa simplesmente pega.
5- Temos um dilema na Bahia: a maioria dos
policiais é negra e educada para combater uma população predominantemente
negra. Qual a percepção do sr. sobre essa realidade?
(Carl)
Essa pergunta tem uns componentes notáveis. A primeira coisa é que toda pessoa,
de qualquer raça, tende a ser morta por um semelhante dela. Por todo o mundo,
não é incomum. Quando falamos de negros, achamos que seria incomum, mas não é.
Segundo, quando pensamos na polícia, é uma organização que simplesmente faz o
que a estrutura de poder quer que ela faça. E a estrutura de poder, nesse caso,
é branca. Não é como se a polícia daqui se comportasse de forma anormal. Eles
sabem a quem obedecem. É simples. Por isso que estou tentando enfatizar que é
um problema não haver lideranças negras aqui. Por que, se houvesse, realmente
poderia se traçar um panorama sobre quais são os problemas da violência, de
fato. Não é uma garantia de que teríamos um entendimento por completo, até por
que nos Estados Unidos temos lideranças negras em inúmeros locais, mas eles são
igualmente ignorantes. Eles não entendem o que está acontecendo, enquanto
outros são conscientes. Dessa maneira, o fato de haver lideranças negras não é
garantia de que tenham uma leitura do contexto. Mas, certamente, essa presença
aumenta as possibilidades de compreensão desse quadro.
6-Para sustentar a proibição, políticos no
Brasil defendem que o sistema público de saúde não suportaria uma possível
legalização...
(Carl)
Provavelmente, é algo estúpido e errado.
Eu realmente não ouço políticos, não são pessoas que devem ser ouvidas nesse
assunto, mas pessoas que têm publicações nessa área, que têm evidências,
informação. Políticos, geralmente, são idiotas e, nem penso neles.
7-Salvador é a cidade com a maior
população negra fora da África. Ainda assim, nunca tivemos um prefeito negro.
Como o sr. vê isso?
(Carl) É algo vergonhoso. Percebo que há muito
poucos negros em posições de liderança. Por conta disso, penso que os negros
daqui deveriam protestar. Deveriam ser educados para dizer: 'Isso é
inaceitável!" Até que as pessoas tenham consciência disso tudo vai
continuar na mesma. Enquanto houver essa falta de inclusão, toda a conta vai
ser creditada às drogas. Há um apartheid silencioso acontecendo aqui.
8- O sr. acredita que o Brasil, assim como
ocorreu com Obama nos Estados Unidos, um dia terá um presidente negro?
(Carl)
Eu não sei se esse deva ser o objetivo primordial do Brasil, por agora. Não
faço ideia. Até porque, se você me perguntasse se eu imaginaria que um dia
haveria um presidente negro nos Estados Unidos, eu diria não. No final, estaria
errado. Não sou muito bom nessas especulações. Penso que a população brasileira
deveria se focar mais na igualdade, na inclusão dos cidadãos no mainstream
(posição de destaque). Assegurar que deve haver mais negros com educação,
moradia, empregos, na classe média. Penso que esse deva ser o foco.
(Entrevista
exclusiva concedida ao site A
TARDE)
quinta-feira, 26 de novembro de 2015
Racismo
Porque é tão difícil entendermos que somos iguais?
Josiany Dórea
Rasgue a exclusão
Rasgue a discriminação
Rasgue o racismo
Rasgue o preconceito
Temos o direito de ser iguais quando a diferença nos inferioriza
Temos o direito de ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza
Heduardo KiesseRasgue a discriminação
Rasgue o racismo
Rasgue o preconceito
Temos o direito de ser iguais quando a diferença nos inferioriza
Temos o direito de ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza
Vejamos um texto reflexivo que nos remete sentimentos de revolta e indignação por ainda estarmos caminhando em passos lentos, porém, largos. Contudo, sabemos que é possível mudar a partir de uma consciência coletiva com atitudes nobres e educativas para as novas gerações. Vamos acreditar!!!
“Esse é meu Grove!”, disse Deise Sousa, percussionista, às vezes poeta, feminista negra militante, assistente social, técnica do projeto Ponto de Cidadania e mestranda no Programa de Pós-Graduação em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo (PPGNEIM) da Universidade Federal da Bahia.
LIBERDADE É LUTAR
![]() |
| Imagem: Zumbi - Obra da artista plástica brasileira Zulmira Gomes |
Falar do dia 20 de novembro, enquanto mulher negra, feminista e militante, é mais um dia de reflexão, é mais um dia para demarcamos os nossos passos na direção do construto de luta contra a discriminação racial nas relações sociais que implicam nas assimetrias de gênero em busca da minha/nossa liberdade. Movida por um sentimento de justiça e indignação, meu lugar de fala é como militante e assistente social que atua na garantia dos Direitos Humanos para População em Situação de Rua.
Nessas circunstâncias, por “sermos diferentes”, que a minha memória insiste em ver as lágrimas vermelhas derramando sobre a pele escura. É um sentimento que reverbera dor, toda vez que puxo a respiração e sinto que sou atravessada pelo racismo, contaminado de machismo, misoginia e sexismo. Esse conjunto de opressões impulsionou as mulheres de minha família e outras mulheres negras a ocuparem espaços de subalternidade.
O racismo, acompanhado do estado heteropatriacal, indissociável de suas faces perversas, opera com ações simbólicas e materiais carregadas com as intersecções que objetivamente alimentam as matizes opressoras com efeito devastador em nossas vidas. No pensamento de Audre Lorde, ela enfatiza que “É aprender a tomar nossas diferenças e torná-las forças, pois as ferramentas do senhor nunca vão desmantelar a casa-grande”.
A chaga aberta do racismo, se arvora em proferir ideologia de uma sociedade racista e fascista que constrói de maneira estratégica a perpetuação e reprodução do mito da igualdade racial. Assim, quando olho para dentro de mim e para meus pares, vejo homens e mulheres cotidianamente na labuta da sobrevivência. Decerto, corroboro com Jurema Werneck, que afirma: “NOSSOS PASSOS VÊM DE LONGE”.
Portanto, ainda que o capitalismo patriarcal queira nos conduzir à margem da sociedade, nós resistimos; em especial, nós, mulheres negras, que quebramos paradigmas. Aqui, trago um exemplo de minha vida que certamente converge com outras histórias, em que apenas a terceira geração de mulheres de minha família conseguiu adentrar nas universidades. Ainda que, “nesse lugar” de luta, não estejamos livres de experimentar o sabor amargo do racismo, bem como não nos furtamos em esquecer a cena que revisita a minha/nossa memória por me ver e me identificar com a tragédia vivenciada por Cláudia Silva Ferreira, arrastada por uma viatura da Polícia Militar do Rio de Janeiro até a morte, ali é o meu sexo, meus lábios grossos, é o meu cabelo crespo, minhas idades, é naquele corpo que sustenta a minha classe, minha raça, minha história.
Precisamos resistir e criar estratégias de superação e combate ao racismo para que nossas crianças negras, oriundas da periferia, não experimentem vivências vexatórias como eu experimentei na minha infância, como mostra a letra da música “Nega do cabelo duro”, exemplos que tendem a produzir e reproduzir modelos na contramão da construção da autoestima, do protagonismo e do empoderamento delas.
Resistimos, mesmo quando os nossos jovens são violentados pelo braço armado do Estado, justificando a sua ação racista na política de combate às drogas balizando um terreno fértil para ceifar a vida de nossa juventude negra e pobre. O saudoso Gey Espinheira pontuava essa ação como “negrocídio”.
Na semana do dia 20 de novembro, a tristeza toma meu peito com a perda de mais um guerreiro que o sistema projetou para as práticas transgressoras, homem negro, de uma sensibilidade e inteligência destacada, mas a sociedade excludente lhe deu régua e compasso, pois não basta ser pobre, faz-se necessário criminalizar a pobreza. Foi uma morte individual e concomitante coletiva, pois ramifica para outros espaços que simbolicamente afetam a saúde mental comunitária e, em especial, a familiar.
É mais uma mãe negra que chora pela perda de seu filho, é mais um filho que cresce sem a presença afetiva de um pai, é mais uma mulher negra sozinha que irá trabalhar potencialmente mais para prover a subsistência de sua família.
Com toda conjuntura negativa do contexto histórico do racismo ainda perpetrado no Brasil, nós resistimos engajadas/os com a luta do movimento negro, que culminou em diversas ações de políticas afirmativas, criação de leis e secretárias nas três esferas governamentais, atualmente avançamos com a ONU, proclamando a década internacional afrodescendente, que institui de 1º de janeiro de 2015 a 31 de dezembro de 2024 o tema: “Reconhecimento, Justiça e Desenvolvimento”, objetivando promover o respeito, a proteção e a garantia de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais dos afrodescendentes".
A Bahia foi o primeiro estado a aderir à proposta da SEPPIR. Assim, é importante celebrar as conquistas, mas não esqueçamos de apontar os desafios em reparar séculos de exclusão, opressão e exploração, contudo, estamos avançando com incansáveis passos largos para superação da desigualdade racial, intolerância religiosa e xenofobia que acomete a nossa população negra.
Há um paradoxo nessa caminhada, estejamos atentos e atentas às máscaras da conjuntura política, econômica e neoliberal do Estado, porque ele tem cor e é macho.
Precisamos combater o patriarcado e seus privilégios que usufruem de instrumentos materiais e ideológicos para manter-se no “berço esplêndido”. Será que nesse lugar não cabem as nossas diferenças ou alguma coisa está dentro da ordem para permanecer as desigualdades? Assim, sigamos com a Nação Zumbi: “Um homem/mulher roubado/a nunca se engana”.
As nossas lentes de gênero, classe e raça precisam estar afiadas, pois é lutando que mandamos o racismo embora. Que sejamos as mãos, os pés, os pensamentos e a voz para efetivar a justiça e igualdade de direitos. Que a nossa história esteja firme e segura em nossas mãos. Finalizo este ensaio com o pensamento negro de Nina Simone: “Liberdade para mim é isto: Não ter medo”.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2014
Formar cidadãos consumidores
com consciência crítica e princípios éticos.
Será possível?
Josiany Dórea
Como podemos conscientizar os jovens sobre o consumismo exacerbado?
Qual o papel da Escola? A escola pode ajudar? E qual o caminho para um
consumismo saudável, sem exageros? São questões que estimulam nossa reflexão.
Acreditamos que a escola é o instrumento mais adaptável
para a conscientização dos jovens consumidores em formação.
Vejamos um texto da professora mineira, Terezinha Rios que
nos remete a refletir sobre a difícil arte de consumir com consciência crítica,
em nossa contemporaneidade.
Consumir é viver?
A escola precisa formar cidadãos conscientes que sejam
capazes de construir uma sociedade crítica.
Construir a vida boa - essa é a finalidade de uma ação que
se fundamenta nos princípios éticos. Na perspectiva da moral, temos muitos
critérios e referências para qualificar como boa a vida das pessoas. Há os que
julgam que ela é fruto do poder que se exerce sobre os outros. Há também quem a
associe à posse de bens e à satisfação de desejos, quaisquer que sejam eles -
situações que, na sociedade contemporânea, estão estreitamente ligadas ao
consumo. A posse de coisas, de dinheiro e até de pessoas tem sido algo bastante
estimulado, revelando valores nem sempre fundamentados em princípios sólidos.
Os indivíduos se mobilizam para adquirir aquilo que lhes dê prestígio, o
destaque dos demais e os faça ocupar lugares privilegiados no cenário social.
Poder comprar é importante, mas poder comprar o que não está alcance de outros
é apresentado como garantia de felicidade. A vida boa, feliz, tem sido
frequentemente identificada como aquela em que se pode consumir. A imagem do
cidadão confunde-se, então, com a do consumidor.
É importante pensar no papel que a instituição de ensino
desempenha nesse contexto e na responsabilidade dos gestores em relação ao que
se vivencia no cotidiano educacional. É preciso indagar, criticamente, se a
escola - que se propõe a formar cidadãos - não tem contribuído para o
desenvolvimento do espírito consumista, assim como que riscos ela corre ao se
deixar levar pelos apelos feitos pela mídia, pelos veículos de publicidade e
até mesmo pelas famílias.
No livro A Ética É Possível num Mundo de Consumidores? cuja leitura recomendo, o pensador
polonês Zygmunt Bauman nos alerta em relação a cenários preocupantes no que diz
respeito a essa questão. Ele faz referência à Educação como algo que pode
contribuir para uma resposta afirmativa à pergunta-título da obra. O processo
de ensino e de aprendizado é um movimento de construção da humanidade, de
criação e recriação de cultura. Esta, fruto do trabalho, tem como objetivo
satisfazer as necessidades humanas. Contudo, ao elaborar os produtos culturais,
os indivíduos não atendem apenas às necessidades básicas, mas inventam novos
itens indispensáveis. Isso faz parte do que nos constitui como pessoas, porém,
a maneira como as necessidades são exploradas em cada contexto social pode ser
problemática. É a esse assunto que nos referimos quando falamos em um mundo de
consumidores. Em vez do alimento, há um apelo para que busquemos determinados
produtos e marcas. Mais que lazer, procuramos aquilo que nos é apresentado como
o que faz sucesso.
"Consumir é viver, conviver é sumir", canta
Paulinho da Viola em um de seus sambas, no qual traz uma crítica aguda à vida
transformada em supermercado, em shopping center. A escola tem de ter claro que
conviver é a palavra de ordem não para sumir, mas para aparecer, no espaço político,
como participante da construção da sociedade. Daí ser indispensável um projeto
de conscientização e de diálogo frequente em relação aos valores que sustentam
o trabalho. Se a resposta que dermos a Bauman for negativa, teremos perdido a
esperança, que não se compra - é algo que se sente e se partilha. A escola
necessita recorrer à ética e criar espaço para que possamos
"esperançar".
Terezinha Rios é graduada em Filosofia e doutora em Educação.
sexta-feira, 2 de agosto de 2013
Visitação ao Palácio Rio Branco
Por
Josiany Dórea
A nossa conversa afinada realizou-se no Palácio Rio
Branco. Retornamos aos nossos encontros em grande estilo fazendo uma
releitura sobre a nossa história.
O Palácio do Rio Branco era a residência e
sede do Primeiro Governador Geral do Brasil, Tomé de Souza. Está localizado na
Praça Tomé de Souza, ao lado do Elevador Lacerda; próximo a Prefeitura de
Salvador e a Câmara dos Vereadores.
Segundo os historiadores, o Palácio do Rio Branco representa a quarta versão arquitetônica do Palácio Real dos Governadores feito pelo fundador da cidade, Tomé de Souza. Considerado o centro político da Cidade, o palácio transformou-se em cenário de fatos históricos acompanhados de várias celebridades da época. Em 1818, o Palácio hospedava D. João VI e sua esposa Dona Carlota Joaquina e vários netos, entre os quais D. Pedro, menino de nove anos, depois Imperador do Brasil. Em 1859 foi residência provisória de D. Pedro II e sua mulher, a imperatriz Tereza Cristina.
Em 24 de fevereiro de 1900 é inaugurada a construção do novo prédio do palácio, com vários salões e salas, na gestão do governador da Bahia, Luís Viana.
O Palácio foi um dos pontos atingidos pelo bombardeio efetuado na cidade do Salvador, a mando do Presidente da República Hermes da Fonseca, em 1912. O prédio ficou praticamente em ruínas. Entre as várias perdas, a mais prejudicial foi à destruição do rico acervo de livros raros que ficava no térreo. Contudo, em 1919, é edificada a última construção que passa a ser chamada de Palácio do Rio Branco, em homenagem ao Barão do Rio Branco. Toda a reconstrução da parte bombardeada e demolida na fachada principal foi projetada pelo arquiteto italiano Júlio Conti.
No
ano de 1949, o palácio passa por novas reformas e ampliações em função de
crescimento administrativo, permanecendo como centro de decisões até 1979.
| Parte externa do Palácio do Rio Branco |
Atualmente o Palácio Rio Branco abriga a Fundação Pedro Calmon, a
Fundação Cultural do Estado da Bahia e o Memorial dos Governadores. Em 2010,
novamente restaurado, o Palácio passa a receber visitantes com hora marcada e
acompanhada por guias. “O Rio Branco tem fachada eclética, refinado interior em
estilo do período belle époque e está construído a 70 metros de altura do nível do mar, acima da Baía de Todos os Santos, no mesmo local em que Tomé de Souza edificou, a partir de 1549, a
primeira casa governamental do Brasil e, por isso, esse prédio é tão
emblemático para ser mais visitado e conhecido”, explica o diretor geral do
Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural, Frederico Mendonça.
Observamos que somos capazes de vislumbrar o mar, curtimos as praias, bares e restaurantes, show com variados estilos musicais, contudo, não utilizamos um tempo para contemplar nossos museus. É preciso que os órgãos públicos e os canais midiáticos divulguem e incentivem a participação da sociedade aos museus, principalmente em Salvador.
Visto que, em nossa cultura, relacionamos as visitas aos museus com aulas de
campo nas Escolas. Então, fica uma
representação de que o museu é para estudos acadêmicos. Geralmente, não conseguimos
associar o Museu como uma boa dica para nosso lazer nos fins de semana.
O museu é, portanto, o instrumento que garante a reprodução
da nossa história, pois, transforma as personagens, objetos, livros e afins em
imortais; o que possibilita reviver o contexto histórico e cultural de uma
nação. Observamos isso no Palácio Rio Branco em que comporta os acervos da nossa história política baiana.
Visitamos o
Palácio Rio Branco com hora marcada e acompanhados pela guia Itamara que nos
proporcionou uma manhã de conhecimentos e recordações à nossa história. Ela nos informou que atualmente o governador Jacques Wagner
trabalha em umas das salas do Palácio, resgatando a nossa história.
Passamos pela a escada de cristal com seu tapete vermelho, a sala de espelhos, sala de despachos; a estátua do Governador Tomé de Souza e contemplamos a linda vista para a baia de Todos os Santos.
| Atual sala de despachos do Governador Jacques Wagner |
Visitamos
também o Memorial e a Galeria dos Governadores Republicanos Baianos, localizado
no Térreo do Palácio Rio Branco.
Saímos do Palácio com a certeza de que precisamos visitar
os museus em nossa cidade. Um povo que não conhece a sua cultura e história é
considerada analfabeto cultural. Portanto, não desenvolve o interesse para
compreender a História, assim afirma Gilberto Cotrim: “A História mostra o
que os homens foram e fizeram. Isso nos ajuda a decidir o que podemos ser e
fazer”. E o Palácio Rio Branco é o retrato do que foi e continua sendo a nossa
História.
*Caso prefira, as
visitas podem ser previamente agendadas através do telefone (71) 3117-6491.
Referências:
Silva, Cecília Luz, A Cidade do Salvador
nos seus 454 anos. Salvador, EGBA, 2006.
Assinar:
Postagens (Atom)








